"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
- João Guimarães Rosa

 

Ensinar...

... talvez seja uma das tarefas de maior responsabilidade que alguém pode assumir. Porque quem o faz, está possivelmente criando discípulos, motivando aqueles a quem ensina a acreditarem nas suas palavras, na sua verdade.

Qualquer que seja a situação aprendizado-ensino, é delicada e merece ser considerada com cuidado e atenção especial daqueles que se propõe a ensinar alguma coisa. Quando falamos em uma sala de aula, isso é mais claro, por se tratar de um ambiente onde naturalmente o professor é colocado em uma posição de verdade perante os alunos. Os alunos, nesse local, parecem abrir-se ao recebimento e à absorção de informações de tal forma que até mesmo informações eventualmente incorretas que lhes sejam passadas podem vir a ser vistas como corretas ali. Alunos normalmente acreditam que o professor realmente conheça e domine o assunto que está apresentando e nesse sentido eles se colocam em sala de aula como se fossem um paciente pronto para receber uma injeção. O paciente normalmente não questiona se o conteúdo da injeção está certo, se a forma de aplicação é correta, se o profissional é adequado. Ele simplesmente acredita que, pelo fato do profissional ter sido escalado para aquela tarefa, ele tem conhecimento e domínio do assunto e é, a princípio, confiável.

Dar aulas é um processo muito parecido com o de dar injeções. Ali não se tem o instrumento físico da seringa e o líquido a ser injetado, mas existe o poder de persuasão e o conhecimento do professor. Na injeção, o remédio entra no organismo pela agulha. Nas aulas, os ensinamentos entram na mente dos alunos através da capacidade do professor de transmitir o seu conhecimento de forma clara e convincente e da sua habilidade de "injetar" conhecimento nos alunos.

Tanto a tarefa de aplicar injeções, como a tarefa de ensinar, têm um requisito em comum: ambas precisam ser feitas com princípios éticos por parte de quem as assume, acima de tudo. Em ambos os casos, se está injetando "coisas" dentro de um organismo totalmente vulnerável àquilo que recebe. Um organismo pronto para absorver essa injeção, seja ela boa ou ruim. Quem a recebe, normalmente não tem meios suficientes para avaliar a qualidade do que está recebendo, a sua veracidade e a sua conveniência para o caso, mas acredita no profissional que lhe está "tratando".

Justamente por causa dessa posição vulnerável na qual os alunos normalmente estão, penso que a primeira luta do ensino deveria ser a formação ética dos professores. Dicionários da língua portuguesa nos dizem que ensinar é sinônimo de instruir, educar, mostrar caminhos, transmitir conhecimentos. Como pode uma pessoa assumir alguma tarefa dessas se não tiver princípios éticos? Seria no mínimo estranho, algo como educar de forma errada ou mostrar caminhos errados, talvez. Comportamento ético e exemplar é um primeiro requisito a qualquer pessoa que deseje ensinar qualquer coisa.

Vamos pensar mais um pouco no que os dicionários falam a respeito de "ensinar". Infelizmente, dicionários só traduzem ao pé da letra o significado das coisas, e não conseguiriam jamais expressar o real significado deste verbo tão abrangente. Em sua visão objetiva, os dicionários apresentam"ensinar" como sendo tarefa ligada à transmissão de conhecimentos de uma pessoa que sabe mais, para a que sabe menos. Isso é real, porém não abrange o real significado do termo na prática do bom ensino. Dicionários deixam de abordar um aspecto do ensinar que é fundamental para que a tarefa seja realmente bem-feita: o fato de que ensinar é, antes de mais nada, aprender.

Cada turma de alunos e cada aluno individualmente oferece em si uma fonte de aprendizado ao professor. Aprendizado sobre o ser humano, aprendizado de novos olhares sobre um assunto já conhecido, aprendizado de novas possibilidades de se tratar temas diversos. Ao professor, ensinar é uma tarefa que diariamente lhe mostra que quanto mais se sabe, mais há para saber.

Ninguém precisa ter a profissão de professor para ser considerado como tal. Mas penso que todos os que querem ensinar, precisam de pelo menos duas coisas: princípios éticos e a vontade de sempre aprender. Porque assim, eles saberão conduzir sua atividade de forma que os alunos se elevem ao nível apresentado desejado, e não que o ensinamento se rebaixe para alcançar o seu nível de formação eventualmente inferior ao ideal.

 

"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."
- Cora Coralina


Texto de Maria Regina Leoni Schmid


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